Não é de hoje que o ser humano aspira a momentos perfeitos: o amor perfeito, o filho perfeito, o emprego perfeito, a vida perfeita! Antigamente, religiosos devotados travavam duras lutas interiores buscando alcançar o Olimpo, atingir o nirvana ou vivenciar o paraíso na terra.

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E hoje não é diferente!

Parece que vivemos uma vida tantalizante! Sim: a palavra é essa mesmo! Um nome inspirado pelo mito grego de Tântalo.

Muitas vezes, sacrificamos o que temos em função de sonhos desmedidos e desejos do nosso ego, arriscando perder tudo o que já conquistamos, para só então darmos valor a tudo o que tivemos algum dia. E pior: podemos estender aos nossos descendentes a irresponsabilidade por essa busca desenfreada e pelos nossos atos no presente.

O mito grego do rei Tântalo desvela a ambição de um mortal que, não satisfeito em ser notoriamente o “predileto dos deuses”, almejava transmutar-se num “deus” propriamente, incorrendo no erro brutal de oferecer seu próprio filho em banquete, sendo por isso, condenado ao suplício da fome e sede eternas. Mergulhado em águas até ao pescoço, quando ele se debruçava para bebê-la, a água se afastava tornando impossível matar sua sede. Por cima de sua cabeça, pendiam ramos de árvores com frutos saborosos, porém o vento retirava do seu alcance sempre que tentava apanhá-los.

As histórias da nossa vida, da nossa busca da verdade, da busca do sentido de estarmos vivos, da busca pela perfeição podem ser bem parecidas. Quantas vezes vivemos na busca de coisas que parecem estar tão perto e ainda assim, tão longe?

Talvez esse seja o pior sofrimento daquele que sempre busca o inalcançável e tem nos olhos a visão de que o jardim do vizinho é sempre mais bonito. Certa vez li em algum lugar que um amigo de Olavo Bilac o procurou e pediu que redigisse um anúncio para que ele pudesse vender o seu sítio. Olavo pegou o papel e escreveu: 

“Vende-se uma encantadora propriedade, onde canta os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalina água de um ribeirão. A casa banhada pelo sol nascente oferece a sombra tranquila das tardes na varanda”. 

Meses depois, o poeta encontrou o amigo e perguntou-lhe se havia vendido o sítio. Ele respondeu: “Nem penso mais nisso, quando li o anúncio que você escreveu eu pude perceber a maravilha que eu tinha”.

Parece incrível que precisemos que outras pessoas também achem que o nosso jardim é mais florido do que o delas para que possamos enxergar isso. Às vezes, a felicidade bate à nossa porta e não percebemos porque estamos tão preocupados em olhar a vida dos outros que não conseguimos enxergar nossa própria felicidade. Vale pro emprego perfeito, pro namorado perfeito, pro momento perfeito…

Ainda que tenhamos condições de conquistar muito mais do que temos, não podemos nos esquecer da nossa condição, dos nossos princípios e de nossos limites. Não há como responsabilizar nem aos outros e nem aos deuses! 

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