O que a tendência do unquantified self me fez pensar sobre corpo, tecnologia e essa mania de otimizar até o descanso

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Outro dia acordei pensando numa coisa meio absurda: em que momento, começamos a precisar de um relógio para nos contar como dormimos?

Você acorda bem. Abre o aplicativo. Descobre que sua “nota de sono” foi ruim. E pronto.

De repente, aquela sensação de ter descansado perde um pouco da validade porque o gráfico discorda de você.

Eu gosto de tecnologia. Gosto de dados. Quem me conhece sabe o quanto gosto de entender comportamento, perceber padrões e juntar informações para tomar decisões melhores.

E uso isso na minha própria vida. Quando pedalo, por exemplo, gosto de olhar o Strava depois. Ver quantos quilômetros fiz, observar o ritmo, comparar um percurso com outro, perceber que uma distância que antes parecia mais difícil hoje ficou mais confortável. Tem uma satisfação real em enxergar a evolução que, no dia a dia, nem sempre percebemos.

Os dados ajudam. Mas existe uma pergunta que começou a me incomodar: em que momento usamos tantos dados para nos conhecer que começamos a desaprender a nos perceber?

Quando bem-estar vira performance

Nos últimos anos, transformamos muita coisa em indicador: Passos. Calorias. Frequência cardíaca. Sono profundo. Sono REM. Estresse. Recuperação. Tempo de exposição ao sol. Ciclo menstrual. Glicose. Respiração.

E, para quem pratica algum esporte, a lista aumenta: distância, tempo, ritmo médio, velocidade, recordes pessoais, evolução.

É fascinante o quanto conseguimos saber sobre o nosso próprio corpo. E eu não quero abrir mão disso. Acho ótimo olhar no Strava e perceber que consegui percorrer uma distância maior ou sustentar um ritmo melhor… O dado registra uma coisa que a memória, sozinha, provavelmente não registraria com tanta precisão. O problema não está aí.

O problema começa quando aquilo que deveria ampliar nossa consciência passa a produzir mais uma lista de coisas nas quais precisamos performar bem.

Talvez seja por isso que uma tendência chamada unquantified self — algo como “eu não quantificado” — tenha começado a chamar atenção. Em julho de 2026, o próprio Global Wellness Summit destacou o crescimento desse movimento como uma reação à pressão de monitorar cada aspecto do corpo e da mente. A discussão faz parte de uma tendência maior identificada pela organização neste ano: uma reação ao excesso de otimização do bem-estar.

Não se trata de abandonar a tecnologia. Trata-se de devolver ao corpo o direito de também participar da conversa.

Aos 50, essa conversa ficou diferente para mim

Eu ando de bicicleta (que me motivou a esse texto), faço yoga, pilates, jogo beach tennis quando consigo. E uma coisa fica muito clara nesta fase da vida: meu corpo não chega igual todos os dias.

Tem dias de energia. Tem dias de cansaço. Tem dias em que quero movimento. Em outros, diminuir o ritmo é a melhor decisão que posso tomar.

Por muito tempo, fomos ensinadas a interpretar disciplina como constância quase matemática.

Fez ontem? Faça mais hoje.

Deu conta na semana passada? Tem que dar conta nesta.

Aguentava aos 30? Por que não aguentaria agora?

Só que o corpo não é uma planilha de Excel em que a gente replica a fórmula para a célula seguinte.

Ele muda. E isso aparece até quando faço o mesmo percurso de bicicleta.

Posso olhar duas atividades no Strava com distâncias parecidas e ritmos diferentes. O aplicativo vai registrar exatamente isso.

O que ele não sabe é que, em um dos dias, eu estava descansada e, no outro, tinha dormido mal. Não sabe se parei para conversar, se estava com pressa, se o vento estava gostoso, se pedalei querendo melhorar meu tempo ou simplesmente querendo sair de casa e me movimentar.

O número conta uma parte da história. Não conta a história inteira.

E nessa história, talvez uma das coisas interessantes de chegar aos 50 seja justamente começar a perceber que maturidade também é parar de negociar contra evidências que estão bem na nossa frente.

Às vezes, a evidência é um número. Em outras, é uma dor. Um cansaço estranho. Uma noite mal dormida. Uma irritação que você não conhecia. Ou simplesmente aquela sensação difícil de explicar de que hoje não é dia de exigir mais.

Não quero romantizar a intuição. Muito menos colocá-la no lugar da medicina, de exames ou de acompanhamento profissional. Quero apenas devolver valor a uma informação que ficou meio desprestigiada nessa febre de medição ou do relógio (ou o anel) que faz tudo por nós: aquilo que a gente sente.

O problema começa quando o dado vira autoridade

Existe até um termo para um dos extremos dessa relação: orthosomnia, nome usado para descrever a busca obsessiva por um sono “perfeito”, alimentada pelas informações dos rastreadores de sono. O conceito apareceu na literatura médica justamente a partir de pacientes que chegavam aos consultórios preocupados em melhorar os números registrados pelos dispositivos, mesmo quando isso aumentava sua ansiedade em relação ao próprio sono.

Olha só a ironia… A tecnologia criada para ajudar você a dormir melhor pode fazer você perder o sono tentando dormir melhor. Não acho que o problema esteja no relógio – eu tenho o meu e dou risada quando não completo os círculos. Muito menos no Strava… O problema está na relação que construímos com eles.

Dados deveriam funcionar como pistas, não como veredictos. Eu posso olhar meu histórico e perceber que estou pedalando distâncias maiores. Posso comparar meus ritmos e descobrir que evoluí. Posso comemorar um recorde pessoal porque ele materializa uma conquista que é minha.

Isso é muito diferente de terminar uma atividade que me fez bem e permitir que um número menor do que o esperado estrague a experiência.

Porque nenhum aplicativo conhece a discussão que você teve ontem. O projeto que está tirando seu sono. A saudade que apareceu sem avisar. A viagem maravilhosa que fez você dormir pouco, mas acordar feliz. O jantar com amigos que terminou tarde. A notícia que mexeu com você.

Nosso corpo não acontece fora da nossa história. E talvez seja justamente aí que uma métrica sempre encontre seu limite.

Ela mede sinais. Nós vivemos contextos.

Talvez estejamos cansados de otimizar tudo… Essa discussão me interessa porque ela vai muito além dos wearables.

Tenho a impressão de que passamos alguns anos tentando transformar a vida inteira num grande projeto de alta performance. Acordar melhor. Comer melhor. Dormir melhor. Produzir melhor. Pedalar mais rápido. Correr mais rápido. Envelhecer melhor. Ter mais foco. Mais disposição. Mais longevidade. Mais equilíbrio. Até o autocuidado ganhou meta, método e cobrança. Ufa! C.A.N.S.E.I.

E olha: eu gosto de melhorar. Muito. Mas talvez exista uma diferença enorme entre querer viver melhor e viver permanentemente tentando se corrigir.

Essa fronteira está meio borrada. O relatório de tendências de wellness de 2026 chama justamente a atenção para uma movimentação em direção a experiências mais sensoriais, emocionais e humanas, com menos obsessão por performance e mensuração.

Eu gosto dessa ideia. Não porque queira voltar para um mundo sem informação. Mas porque quero continuar habitando um mundo em que a informação não substitua a consciência.

Meu corpo também é uma fonte de dados

Talvez seja essa a virada que mais faça sentido para mim. Eu não preciso escolher entre o aplicativo e o corpo. Entre ciência e percepção. Entre tecnologia e intuição.

Posso terminar um pedal, olhar a distância e o ritmo e pensar: “Nossa, evoluí.”

E também posso terminar outro, encontrar números menos impressionantes e pensar: “Que delícia foi isso.”

As duas experiências têm valor.

Posso olhar o dado e me perguntar: isso conversa com o que estou sentindo?

Posso perceber tendências sem obedecer cegamente a uma pontuação. Posso usar tecnologia para me conhecer melhor sem terceirizar para ela a interpretação de quem eu sou. E posso, principalmente, reconhecer que descanso não precisa ser monitorado.

Essa talvez seja uma das coisas que estou aprendendo nesta fase da vida:

Às vezes, você dormiu bem porque acordou bem. Às vezes, a caminhada valeu porque o dia estava bonito. Às vezes, a aula fez bem porque você saiu mais leve. Às vezes, o pedal foi ótimo mesmo sem recorde pessoal. E, às vezes, ficar quieta era exatamente o exercício de que precisava.

O dado pode ajudar a mostrar onde chegamos. Só não deveria ter o poder de decidir sozinho se o caminho valeu a pena. Porque o corpo continua sabendo coisas que nenhum aplicativo consegue medir. A questão talvez seja se a gente ainda está disposto a escutá-lo. Eu aprendi a ouvir o meu antes de tudo!

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