Uma experiência de leitura, escuta e descobertas que não estavam previstas.

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Tenho o livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, há muitos anos.

Já comecei a lê-lo algumas vezes. Em momentos diferentes da vida, procurei capítulos específicos, voltei a algumas passagens e até levei reflexões do livro para a terapia. Mas nunca tinha vivido a experiência de conversar sobre ele com outras mulheres. Até recentemente.

Participei de um clube de leitura conduzido pela Andréia Grava, a partir de um convite da Verônica Ahrens. Nosso encontro foi dedicado ao segundo capítulo do livro, que apresenta o conto do Barba-Azul. E, foi inevitável não pensar sobre a forma como aprendemos, escutamos e construímos nossas próprias interpretações.

Estou acostumada a estar do outro lado da conversa. Minha vida profissional envolve conduzir grupos, fazer perguntas, provocar reflexões, organizar ideias e criar condições para que as pessoas aprendam umas com as outras.

Dessa vez, eu estava ali como participante… Sem precisar conduzir, organizar ou chegar a alguma conclusão. Era só ler, ouvir e compartilhar… E como foi bom ocupar esse lugar.

A porta que eu não queria abrir

Vamos falar sobre o livro… O conto do Barba-Azul apresenta uma jovem que recebe do marido as chaves de um castelo, com a orientação de que pode abrir todas as portas, menos uma. Obviamente, ela acaba abrindo justamente a porta proibida e encontra uma realidade terrível. A chave fica manchada de sangue, e nenhuma tentativa consegue limpá-la para que o marido descubra…

Durante a conversa, associamos a chave à consciência, curiosidade, intuição, sedução e sobre aquilo que não conseguimos mais ignorar depois de descobrir.

Eu fiquei pensando na porta, confesso… Porque, para mim, a questão não era apenas ter a chave. Era decidir se queria realmente descobrir o que havia do outro lado.

Sou uma pessoa que costuma ouvir bastante a própria intuição. Percebo sinais, sinto quando alguma coisa não está bem, identifico situações que merecem mais atenção. Mas isso não significa que eu sempre queira olhar para elas.

Às vezes, percebo alguma coisa e prefiro colocar deixar aquela porta ali… fechadinha. Não porque desconheça o que pode estar ali, mas porque sei que, se abrir, talvez precise tomar uma decisão. E decidir pode ser doloroso.

Durante o encontro, compartilhei que venho de aproximadamente dois anos em que escolhi abrir algumas dessas portas. Algumas sangraram. Outras me mostraram coisas que eu já desconfiava, mas ainda não estava preparada para reconhecer. Mas, não adianta… Uma vez que essas portas se abrem, não há muito sentido em fingir que eu não tinha visto. Foi essa a primeira conexão que fiz com a história…

Mas a conversa continuou. E foi aí que a experiência ganhou outra dimensão.

Quando a história de outra mulher encontra a nossa

Em determinado momento, começamos a conversar sobre a mãe das três irmãs do conto. Ela aparece no início, participa de um passeio com as filhas e depois praticamente desaparece da narrativa.

Qual seria o papel daquela mãe? Deveria ter percebido o perigo? Protegido a filha mais nova? Ou permitir que ela fizesse suas próprias escolhas também fazia parte do amadurecimento?

As interpretações começaram a surgir. Uma participante falou sobre ter crescido cercada de mulheres fortes e, ainda assim, sentir falta de determinados ensinamentos. Outra trouxe a possibilidade de que a ausência da mãe representasse confiança na capacidade da filha de encontrar o próprio caminho.

Enquanto eu ouvia, comecei a pensar na minha história…

Perdi minha mãe aos 18 anos. Aos 21, tive meu primeiro filho.

Em um intervalo muito curto, deixei de ter minha mãe por perto e passei a ocupar esse papel na vida de outra pessoa.

Hoje, olhando para trás, percebo o quanto precisei descobrir sozinha sobre maternidade, escolhas, proteção e independência. Tenho dois filhos adultos e uma relação muito próxima com eles. Sempre procurei mostrar que, além de mãe, sou mulher, profissional e alguém que também tem dúvidas, desejos, dificuldades e escolhas próprias.

Mas, enquanto escutava aquelas mulheres, uma pergunta começou a me incomodar.

Será que, na tentativa de ser uma mãe forte, também esperei de mim respostas que nem sempre poderia ter?

A maternidade carrega uma contradição difícil de resolver.

Queremos proteger nossos filhos dos perigos que conhecemos, mas também precisamos permitir que desenvolvam discernimento para enfrentar aquilo que não podemos prever.

Queremos compartilhar nossa experiência, mas sabemos que ela não substitui a experiência deles.

E, às vezes, o que interpretamos como falta de proteção pode ter sido justamente uma tentativa de oferecer liberdade.

Não tenho até agora uma resposta definitiva sobre isso. E talvez essa tenha sido uma das partes mais interessantes…

O que acontece quando não precisamos chegar a uma conclusão?

Logo no início, Andréia fez uma distinção importante: um clube de leitura não é um grupo de estudos. Não estávamos ali para dissecar o livro, encontrar a interpretação correta ou chegar a um consenso.

Estávamos ali para compartilhar sensações, percepções e experiências. Ela também nos lembrou de que poderíamos terminar o encontro com mais perguntas do que respostas. E foi exatamente o que aconteceu comigo.

Eu cheguei com uma interpretação bastante pessoal sobre a porta e a consciência. Ao ouvir outras mulheres, comecei a perceber aspectos do conto que não tinham chamado tanto a minha atenção.

A mãe, por exemplo, não havia ocupado um lugar tão importante na minha primeira leitura. Foi a escuta que mudou isso. E existe algo muito bonito nessa experiência: ninguém precisou convencer ninguém de nada.

Cada mulher trouxe sua história, sua idade, seu repertório, suas dores, suas dúvidas e sua maneira de compreender aqueles símbolos.

Uma mesma narrativa abriu caminhos completamente diferentes. Sou muito grata a essas mulheres…

É muito louco pensar no quanto estamos acostumados a conversar para responder, argumentar, explicar ou defender uma interpretação. E no quanto podemos descobrir quando simplesmente escutamos, sem a obrigação de acrescentar alguma coisa.

Eu, que trabalho diariamente com perguntas e aprendizagem, me vi aprendendo de uma maneira muito simples: permitindo que a reflexão de outra pessoa encontrasse algo que eu ainda não tinha percebido em mim.

Algumas histórias continuam depois que o encontro termina

A conversa durou mais do que o previsto. E, quando terminou, fiquei pensando que o mais interessante não havia sido descobrir o significado do Barba-Azul, da chave ou da porta.

Foi perceber como uma história pode ganhar novos sentidos quando passa pela experiência de outras pessoas.

O livro estava comigo havia anos. As palavras eram as mesmas. O conto não havia mudado. Mas eu já não era a mesma mulher que tinha tentado lê-lo anteriormente.

E, principalmente, dessa vez eu não estava lendo sozinha. Talvez seja isso que tenha tornado a experiência tão especial…

Em uma fase da vida em que já acumulei tantas experiências, decisões, perdas, conquistas e aprendizados, foi muito bom descobrir que ainda existem perguntas que eu não havia pensado em fazer. E que algumas delas só aparecem quando outra mulher começa a contar a própria história.

Saí do encontro com vontade de continuar lendo, conversando e ouvindo. Sem pressa de encontrar respostas.

Porque, às vezes, uma boa conversa não serve para fechar uma questão. Serve para abrir uma porta.

Respostas de 2

  1. que linda reflexão, minha querida….. pensar juntas, sem cobranças, necessidade de respostas ou fórmulas prontas é mágico… muito boa leitura com vc.. Bjo

  2. Que texto primoroso, Ana!
    Fico muito feliz em saber que o encontro do Clube de Leitura pôde provocar tantas reflexões e ampliar suas percepções, que maravilha!
    E para além disso, partilhou suas impressões dando continuidade a esse círculo virtuoso que é a conexão genuína entre mulheres. Como somos potentes quando estamos juntas!
    Te espero o próximo encontro, dia 11/11 para conversarmos sobre o cap. 9 “Pele de foca, pele de alma”
    Em breve divulgarei as informações.

    Agradeço imensamente e gostaria de sua autorização para partilhar na página da Confraria Literária.

    Abraço e sorrisos 🙂

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