
Recentemente, li uma matéria no El País e como profissional de RH, fiquei intrigada. Sou fã dos pensamentos de Zygmunt Bauman acerca de um mundo líquido que vivemos e pensar que estamos construindo um modelo de emprego líquido despertou o desejo de escrever. A matéria faz referência ao grupo de trabalhadores da fábrica norte-americana da Amazon em Bessemer, Alabama, que decidiu em votação a preferência por não se filiar a nenhum sindicato. Opção essa que eu adotaria sem medo se estivesse lá…
Segundo o correspondente do ‘The Guardian’, Michael Sainato, “eles escolheram se agarrar em seus empregos líquidos” renunciando explicitamente à proteção que um quadro de relações trabalhistas mais sólido poderia proporcionar. É aí que o bicho pega, como diríamos por aqui.
Stuart Applebaum, dirigente do sindicato que queria representá-los, acredita que os trabalhadores não puderam decidir com liberdade, pois foram vítimas de uma campanha de “mentiras, extorsões, manipulações e ameaças” por parte da empresa. A Amazon, por sua vez, argumentou que os trabalhadores da unidade de Bessemer são empregados de qualificação média-baixa que recebem cerca do dobro do salário mínimo e que desfrutam de um “generoso” plano de saúde.
A tal “nova economia” exerce seu caráter inovador e disruptivo e ainda se vê julgada de acordo com os parâmetros da velha. É complexo, mas é real!
Em parâmetros brasileiros, start-ups tem passado por questões bem complicadas quando em rodadas de investimento série A, por exemplo, os investidores exigem que todos os direitos das convenções e sindicatos sejam cumpridas. Passei por isso, e o cálculo é assustador!
A teoria é que os empregos regulados e estáveis por conta alheia (o trabalho sólido como o conhecemos) serão substituídos no médio prazo por tarefas informais e esporádicas em obras ou projetos muito concretos, o que o ‘The Guardian’ chama de “emprego líquido”. Esse é o trabalho que nos espera, o novo paradigma das relações trabalhistas em que estamos ou logo estaremos imersos. Nem sequer os trabalhadores da Amazon fogem dessa lógica.
Entendo a lógica da discussão da precarização do trabalho, da perda de direitos e de má fé, mas acredito que áreas de recursos humanos precisam estar mais ativas nessas conversas. É necessário recorrer a certo grau de “autodefesa” que passa tanto pela frente trabalhista quanto pela frente política, afinal precisamos legislar de maneira razoável frente aos desafios pós-pandemia. Felizmente a experiência nos mostra que as transformações radicais “avançam lentamente ou voltam ao meio-termo: estamos a tempo de consolidar um novo quadro de relações trabalhistas justo e lógico”. É o que realmente espero ver acontecer.