
Redução de custos, avaliações de desempenho, reinvenção, reestruturação, mudança organizacional, fusão e aquisição, privatização, COVID-19… Em virtude da globalização, da crise ou do “bom humor do chefe”, processos como esses têm sido cada vez mais comuns no mundo corporativo e uma de suas consequências diretas implicam em um único caminho: demissão.
E como demitir não é uma tarefa fácil para nenhuma das partes, o jeito é se preparar e encarar o momento com responsabilidade e da forma mais humana possível.
Um bom caminho para tornar o processo menos doloroso passa por entender que demissão é um processo natural em qualquer empresa, mas sempre bastante delicado.
Qualquer liderança só deve pensar em demitir um colaborador após ter feito tudo que estava ao seu alcance para “salvar” o funcionário. Agindo assim, não resta espaço para angústias e sobra coragem para a tomada de decisão, sem que mais tarde pese na consciência a responsabilidade por algo que deveria ter feito ou não.
Demissões em massa são ainda mais complexas. A ação costuma cair como uma bomba na organização. Os funcionários entram em pânico, muitos se revoltam com a frieza da empresa e, é claro, ninguém consegue trabalhar direito com medo da degola e da boataria. Diferentemente de uma demissão isolada, que pode ocorrer por causa de alguma deficiência técnica do profissional, o corte de dezenas ou centenas de pessoas da folha de pagamento geralmente atinge também bons talentos. Isso acontece porque a prioridade é a redução do número de funcionários, o que normalmente impossibilita a empresa de preservar todos os talentos que gostaria.
E nessa hora, o papel da liderança é fundamental. Não adianta tentar delegar essa função ao RH. Mesmo quando essa decisão está acima da capacidade técnica ou dos resultados atingidos é função da liderança avaliar, preparar e comunicar os funcionários.
Lembre-se que tão importante quanto a entrada de um funcionário na organização é a sua saída. Por isso, não basta saber recrutar e selecionar, mas também demitir.
Se ao longo do processo de gestão, a liderança consegue criar uma cultura de comunicação aberta onde cada colaborador conhece seu papel e desempenho na empresa, quando há a necessidade de uma demissão o processo pode ser menos traumático. Transparência no relacionamento, definição de papéis, controles de resultados, avaliação de objetivos e comunicação clara tornam mais fácil o papel do líder, até mesmo na hora de demitir.
Existe uma frase atribuída ao escritor alemão Thomas Mann que diz que “com o tempo, é melhor uma verdade dolorosa do que uma mentira útil.” Então, se você precisou tomar uma medida de redução de equipe, o melhor que tem a fazer é ser honesto. Algumas dicas podem ajudar nesse momento, principalmente se o processo estiver acontecendo em home office:
- Seja claro, rápido e objetivo nessa justificativa. Quanto mais você rodear o assunto é pior e a pessoa ficará desconfortável;
- Tenha conversas individuais. Demissões coletivas são pouco pessoais e fazem com que os indivíduos se sintam apenas uma conta no final do mês que está sendo cortada;
- Prefira o começo da semana e o horário da manhã, pois dessa forma, a empresa estará disponível para responder às possíveis perguntas dos demais colaboradores sobre a questão e o colaborador terá tempo para as providências necessárias ao invés de ter de esperar o final de semana passar;
- Evite pedir desculpas ou dizer “sinto muito”, “me perdoa pelo que vou fazer”, “me desculpe por isso”. Esse é um erro bem comum, porque ao fazer isto, você passa a impressão de que é contra o desligamento ou que não tem certeza sobre a decisão e o outro pode questionar você se a demissão realmente foi justa;
- Não use o argumento de que “isso é necessário para o bem dos demais”. Quem está sendo desligado, sente o momento de forma individual e não coletiva;
- Desejar boa sorte e dizer que ele tem competência suficiente para arrumar logo um novo emprego, quem sabe na própria empresa em um novo momento, pode ajudar a elevar o nível de confiança e autoestima. Mas só faça isso, se for realmente a sua opinião;
- Ofereça escrever uma carta de recomendação para o funcionário, exceto em situações que a demissão for por justa causa;
- Caso seja possível para a empresa, conceda a continuação do benefício do plano de saúde por um período determinado. Em tempos de pandemia, isso pode fazer muita diferença;
- Outro benefício que pode ajudar o colaborador nesse momento é o da cesta básica. Caso a empresa possa mantê-lo também é uma opção amenizadora;
- Ofereça e estimule o colaborador a buscar uma conversa terapêutica para incentivá-lo a buscar novas oportunidades.
A legislação européia prevê o conceito de demissão responsável e no Brasil, esse conceito é praticado por empresas e profissionais que buscam ajudar o ex-funcionário a realizar um balanço de suas competências e preferências profissionais para que, a partir daí, o profissional consiga traçar claramente seu projeto de carreira e possa prospectar uma nova colocação, criar seu próprio negócio, enfim, reconquistar sua condição de trabalho e renda.
Vale ressaltar que este bom comportamento não é apenas uma “boa ação”, mas também uma forma de gerar impacto positivo sobre o próprio negócio e sobre o ambiente interno em meio a uma situação invariavelmente adversa. Não é a toa que se você correr os olhos aqui no LinkedIn, verá que muitas empresas têm disponibilizado uma lista de recomendação de colaboradores recém desligados.
Além do aspecto econômico, a empresa que faz um trabalho de reduzir o impacto das demissões, criando novas oportunidades de recolocação aos desligados e motivando os funcionários que permanecem no quadro de colaboradores está sendo socialmente responsável. O que ganham com isso?
Resolvem o problema de redução de custos (ou de desempenho no caso de demissões ocorridas em processos “normais”); preservam sua imagem perante fornecedores, clientes e também sobre os funcionários que seguem com sua rotina e ficam muito assustados com as demissões. Cuidar de quem permanece na empresa é chave para que ela continue com vigor.
Demitir com responsabilidade é sobretudo uma medida humana. E, sob aspectos legais no processo, reduz as possibilidades de ações trabalhistas já que os próprios demitidos guardarão menos ressentimento da empresa se, no ato da demissão, forem valorizados e respeitados como pessoas, e não peças de um tabuleiro de xadrez.
No mercado competitivo contemporâneo e frente a uma pandemia jamais vivida por nossa geração, toda pequena ajuda serve de apoio na hora do desespero e do estímulo para recomeçar. A empresa e a economia agradecem.