
Se você tem mais de 30 anos, irá se lembrar do início do processo de globalização vivido nas décadas finais do século XX quando grandes mudanças ocorreram no mundo do trabalho, por conta de alterações nos processos produtivos, nas tecnologias e nas relações trabalhistas provocadas pelas novas formas de organização dos mercados globais.
Desemprego, trabalho precário, informalidade, terceirização e transferência de setores e empresas para países e regiões com menores gastos e menos direitos trabalhistas passaram a representar riscos para o trabalho decente e a geração de empregos formais. Entretanto, a construção de uma sociedade fundamentada no empreendedorismo, na valorização do capital intelectual, na liberdade e na justiça não poderia manter a situação dos “sem emprego”.
O caminho do desenvolvimento sustentável fez brotar um importante olhar para a promoção de condições de trabalho e renda para todos, bem como para a geração de protagonismo nos territórios, na valorização da cultura e no fomento a uma economia verde que contemplasse as questões econômicas, ambientais e sociais. Para se atingir o equilíbrio entre a geração de trabalho, empreendedorismo, promoção dos direitos, autonomia e qualidade de vida para todos, a diminuição das desigualdades passou a ser vista como peça fundamental. E estávamos avançando quando um vírus nos pegou…
Não há dúvidas de que muitas conquistas foram alcançadas nos últimos anos.
A diminuição dos níveis de miséria e pobreza, a ampliação do acesso a educação, o aumento do poder de consumo, a lei geral das micro e pequenas empresas e a regulamentação da figura do empreendedor individual trouxeram milhões de brasileiros para um novo patamar de cidadania. Contudo, enfrentaremos importantes desafios. Há muito caminho pela frente.
Em meio a um mar de incertezas, há uma percepção que parece unânime: a crise do coronavírus terá efeitos perenes sobre a forma de fazer negócios. O isolamento vai provocar a criação de novos hábitos e comportamentos no universo corporativo, com revisão das reais necessidades de se manter processos e estruturas. O sistema atual de comando e controle e lucro acima de tudo até pode funcionar quando há previsibilidade no mercado, mas perde o sentido em um contexto instável, e com clientes e consumidores cada vez mais poderosos. (Aliás, esse texto do Mundo Marketing é bem interessante)
As políticas e modelos de negócios precisarão promover as condições para a ampliação do empreendedorismo social, criativo e sustentável. São necessárias medidas inovadoras e integradas para desenvolver empresas e negócios, impulsionar a criação de empregos, ampliar a formação e as competência empreendedoras, ampliar o conceito de encadeamento produtivo incorporando os empreendedores individuais nas cadeia de valor, melhorar as medidas e marcos regulatórios dos setores e facilitar o processo de transição.
A base para a nossa nova normal está nas pessoas, na educação e na garantia de seus direitos e oportunidades. Essa responsabilidade deve ser compartilhada pelos governos, empresas, trabalhadores, sociedade civil, eu e você. Todos podemos contribuir com a melhoria da qualidade de vida, da autonomia e da possibilidade de sonhar e realizar um novo jeito de viver.
Por que em vez de discutirmos como voltar ao normal não gastamos nosso tempo construindo uma nova normal?
Durante um período como esse, nosso salto de qualidade virá como resultado do que escolhemos fazer para as pessoas ou nossos passos atrás serão dados por aquilo que deixamos de fazer. O ser humano e suas relações sociais devem ser vistos como fator fundamental para a promoção dos direitos humanos, do empreendedorismo e para a transformação de um modelo competitivo num modelo colaborativo e solidário, tanto entre as pessoas, como entre elas e as empresas, entre as empresas e as empresas, e entre todos e a natureza respeitando-se os limites da saúde (nossa e do planeta).
Muitas das empresas que desenvolveram modelos de negócios inclusivos nas últimas décadas foram forçadas a inovar para superar desafios conceituais como integrar comunidades de baixa renda na cadeia de valor dos negócios, geração de valor compartilhado, sustentabilidade ambiental, econômica e social, dificuldade de acesso a bens e serviços e precisaram mudar sua mentalidade para enfrentá-los.
Talvez tenha chegado a hora de revisarmos algumas algumas questões… E nesse cenário, sobram futurologistas traçando caminhos e tendências em suas lives diárias nos orientando sobre quais estratégias seriam capazes, pelo menos, de minimizar os efeitos devastadores que têm sido previstos. Se irão acertar? Vamos precisar voltar a esse texto em 3 ou 5 anos.
É hora de assimilar que o mundo que existia há um mês não existe mais. E, quanto mais rápido nos dermos conta disso, mais facilmente conseguiremos nos adaptar a essa nova realidade. Como bem disse Charles Darwin, “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas aquele que melhor se adapta às mudanças”. Se você não está preparado para elas, talvez já esteja atrasado.